Anitta celebra divindade feminina em ato em ato III de EQUILIBRIVM.
A narrativa audiovisual de “EQUILIBRIVM” continua. Anitta lança, nesta terça-feira (28), “Deus Mãe”, o terceiro ato da sequência de vídeos musicais de seu novo álbum. Embalada pelas faixas “Mandinga” e “Nanã”, a produção reflete, respectivamente, sobre liberdade feminina e a sabedoria da mais velha das orixás afro-brasileiras. Participam Marina Sena, Rincon Sapiência e King Saints, colaboradores das canções.

“‘Deus Mãe’ começa convocando mulheres a romperem suas amarras, ao som de ‘Mandinga’. E termina celebrando a mais antiga e sábia das Yabás, senhora da criação”, reflete Anitta. “Essas músicas, juntas, funcionam como um testemunho da força feminina no campo social e também no espiritual”.

Nídia Aranha, diretora criativa de todo o projeto “EQUILIBRIVM”, ecoa a fala da cantora: “O terceiro ato desloca a ideia de divindade para além do eixo patriarcal ocidental e propõe uma deidade feminina, geradora de si e do mundo, onde criação e contexto são indissociáveis”.

DEIXA EU DANÇAR
“Mandinga” abre esse percurso. Reis e figuras masculinas de poder dominam o início do filme, simbolizando estruturas ancestrais de opressão. Nesse cenário, Anitta e Marina Sena surgem presas a essas condições, confinadas em uma gaiola de madeira.
Ao longo da música, esses elementos entram em colapso, abrindo espaço para outra organização do mundo. As forças ancestrais iorubá Ìyámi Òṣòròngá – aqui manifestadas na forma de três aves que sobrevoam a floresta – são responsáveis por quebrar esse feitiço e libertar as artistas, que passam a trilhar seus próprios caminhos como protagonistas de suas histórias.
“Esse desejo de romper com estruturas de poder fica evidente também no final da faixa, quando eu e Marina recusamos o trono antes ocupado pelos reis que nos aprisionavam”, comenta Anitta.
Felipe Britto, sócio-fundador da Ginga Pictures e responsável pela produção audiovisual do álbum, completa dizendo que a ideia foi “construir uma narrativa visual onde as mulheres aparecem inicialmente presas num mundo patriarcal, governado por homens, e de forma natural, quase inevitável, vão quebrando essa mandinga. É a força feminina se libertando por dentro, empoderada e independente, sem precisar pedir licença”.
A narrativa dialoga com a letra da canção, dividida deliberadamente em duas partes: na primeira, Anitta canta sobre sedução e conquista, com o sample de “Canto de Ossanha”, de Vinícius de Moraes e Baden Powell, criando um clima de feitiço. Na segunda metade, Marina Sena rompe esse encanto, transformando a música em um manifesto de empoderamento.
BARRO E TERRA
Já “Nanã”, que embala o segundo momento do medley visual, evoca Nanã Buruquê, a mais antiga das orixás. Conhecida como senhora da criação, dos pântanos e da lama, a yabá – nome dado às divindades femininas do candomblé – é associada à sabedoria ancestral, regendo o ciclo da vida (nascimento, morte e reencarnação) e moldando o ser humano a partir do barro.
“A figura de Nanã se materializa lindamente nesse vídeo por meio de uma senhora adornada em lilás e roxo, cores associadas à orixá, esculpindo o mundo com o barro”, explica Anitta. “A gente fala de Deus e, para o mundo inteiro, essa figura costuma ser masculina. Mas e a mãe? Quem é? Nanã simboliza a criação do ser humano. Para mim, é muito importante ter uma referência de deusa, porque todos nós viemos de um útero”.
O produtor Felipe Britto relembra: “A construção visual dessas cenas precisava ter peso, tempo e textura, criando uma atmosfera coerente com esse universo. Trabalhamos a paleta, os elementos naturais e a forma como Anitta se movia e se relacionava com o espaço. O mais importante era que o público sentisse algo, mesmo sem necessariamente conhecer as referências”.
Rincon Sapiência, que participa com vocais e também aparece no audiovisual, celebra a parceria: “A espiritualidade de matriz africana sempre esteve presente na música brasileira. É importante uma artista do porte dela levar essa linguagem para um grande público hoje”.
Também presente na faixa, King Saints reforça a potência do projeto: “É uma experiência linda, madura e pronta para ganhar o mundo. Está tudo incrível, e só tenho a agradecer por fazer parte de um álbum histórico como ‘EQUILIBRIVM’”, diz a artista, que também assina a composição de seis das 15 faixas do disco.
MODA QUE CONTA HISTÓRIA
Os figurinos de “Deus Mãe” são elementos fundamentais da narrativa. Em “Mandinga”, por exemplo, destacam-se as criações do paraense Labô Young, que trabalha com folhas, palhas e sementes em diálogo com saberes ancestrais. O estilista também assina as máscaras que dão rosto às figuras masculinas do clipe.
Em momentos-chave, Anitta e Marina Sena quase se camuflam na paisagem, com looks inspirados nas Rainhas das Matas – coletivo de mulheres trans e travestis da Ilha do Marajó, no Pará, conhecidas por produções feitas com elementos naturais em defesa do meio ambiente.
André Philipe, que co-assina (ao lado de Daniel Ueda) o styling do projeto, comenta essa integração entre moda e natureza: “Nos ligamos muito nas cores e no cenário. No look que Anitta usa no rio, por exemplo, as folhas do vestido passam a impressão de se estar acima d’água. A gente se inspirou no Brasil”.
As escolhas para o bloco de “Nanã” também foram totalmente intencionais: “Priorizamos tons com fundo roxo e vinho, que remetem à orixá. Os acessórios tinham formas orgânicas, como barro esculpido. Já os tecidos eram naturais, evocando lama, terra e folhas molhadas”, explica André.
Foto: MAR+VIN.
