‘EQUILIBRIVM II’: Anitta transforma Brasilidade em poesia em novo álbum.
Anitta lançou, nesta quinta-feira (23), “EQUILIBRIVM II”, seu mais novo álbum. Continuação do projeto lançado em abril de 2026, o nono disco de estúdio da cantora retoma as reflexões sobre amor, espiritualidade e ancestralidade de seu antecessor. A obra conta com a participação de Maria Bethânia, Alceu Valença, Mart’nália, MC Tha, Alexandre Carlo, Mestrinho, King Saints, o duo de produtores Los Brasileros, Katú Mirim, Letícia Fialho, Brô MC’s, Kbrum e Grupo Ofá.
O trabalho chega também acompanhado de um curta-metragem musical, que transforma as novas canções em poesia visual. A produção será exibida com exclusividade no “TVZ Esquenta – Especial Equilibrium II”, no Multishow, às 21h30 do dia 23. Logo em seguida, às 22h, o filme ficará disponível para assinantes e não-assinantes do Globoplay. E então, à meia-noite, os fãs poderão conferir o audiovisual no YouTube da carioca.

“Me coloquei inteira nesse disco. Quem ouvir vai perceber isso. São músicas que têm muito da minha espiritualidade, da minha visão de mundo, das brasilidades que me encantam e pitadas autobiográficas também”, reflete a artista. “Cada escolha, tanto musical quanto visual, tem intenção aqui. Tenho muito orgulho do que estamos entregando”.
Assim como seu precursor, o volume II do projeto celebra a diversidade da música brasileira. Na sonoridade, são percebidas a influência da bossa nova, samba, reggae, funk e forró, entre outros ritmos da nossa cultura. Já no time de colaboradores, Anitta estende o tapete para nomes tidos como medalhões da MPB, ao mesmo tempo em que divide vocais com artistas celebrados da cena contemporânea e novas vozes também.

DE ALMA LAVADA
Anitta abre os trabalhos com “Você Já Sabe”. Dividida entre os tambores sagrados do candomblé e o tamborzão do funk, a faixa inaugural exalta os exus e pombagiras. E avisa: “Pode chover / Que eu viro trovão”, em uma letra que canaliza a energia vital das entidades e um arranjo que a transforma em potência sonora.
“‘Você Já Sabe’ dialoga diretamente com ‘Meia-Noite’, do primeiro álbum, por ser esse funk super percussivo e poderoso que chega com o pé na porta, sabe? A ideia era exatamente estabelecer esse diálogo com o primeiro disco, que meus fãs amaram”, explica Anitta.
Membro do trio de produtores Los Brasileros, que assinam a produção da canção, Pedro Dash relembra: “A ideia era realmente uma música pra falar: ‘porra, vocês já sabem quem chegou, saca?’. Quando eu mandei pra Anitta, eu falei: ‘cara, fiz uma música pra você abrir seu show ou seu disco’”.
É o trio também quem assina a produção de “Sem Pressa”, aguardada colaboração da girl from Rio com MC Tha. Aqui, as artistas cantam sobre a beleza de se viver a vida sem pressa, conseguindo aproveitar os prazeres e agradecer pelas bênçãos, apesar dos desafios do cotidiano. Tudo isso é embalado pelo ritmo do Ijexá. “Descobri a MC Tha por causa dos meus fãs, que pediram muito que eu gravasse com ela. Me apaixonei de primeira pelo trabalho dela”, relembra Anitta.

A cantora e compositora paulistana, por sua vez, compartilha que “Sem Pressa” é “uma faixa que nos convida ao cuidado e percepção de como nosso corpo está vibrando no mundo. Realça as nossas forças mas também propõe um respiro em meio a tanta luta diária”.
O clima de gratidão e positividade se mantém em faixas como “Abre Caminho” e “Tudo Isso”. Apresentadas em sequência na tracklist, ambas bebem da sonoridade do reggae, ainda que de maneiras distintas.
Em parceria com Alexandre Carlo, “Abre Caminho” demonstra uma versão mais dançante do reggae, versando sobre a importância de levarmos as nossas relações, sejam elas afetivas, familiares ou de amizade, com mais leveza e liberdade, respeitando a identidade e os desejos do outro – a exemplo de letras como: “Amor, quando é de verdade / Desconhece a prisão”. O músico, que é conhecido nacionalmente como vocalista da banda Natiruts, celebra a colaboração com Anitta: “Fico lisonjeado com esse convite. Faz sentido estar num disco que carrega uma mensagem e uma frequência que eu levanto há 30 anos. A Anitta sabe disso e eu tenho uma grande admiração por ela e por tudo que ela faz”.

Já o reggae de “Tudo Isso” é mais arrastado e potente. A letra revela reflexões de um eu-lírico que não quer perder tempo com o que não importa. “Não vou perder meu tempo tendo que explicar o óbvio / Eu não negocio minha paz nem meu sossego”, dizem os versos.
Anitta também não quer guerra com ninguém em “Não Me Cutuca”, que conta com vocais de Alceu Valença. “‘Não Me Cutuca’ é um forrozaço maravilhoso que eu tenho a honra de cantar com o Alceu. É uma letra mais leve, e até debochadinha. Mas super nesse lugar de só querer ser feliz, longe de conflito, absorvendo só o que faz bem pra gente”, explica a cantora.
O músico pernambucano também comemora, de forma divertida, a parceria com a poderosa: “Anitta foi uma parceritta bonitta demais. No meio da turnê de São João, achamos uma brechitta, corremos para um estúdio em Salvador e nasceu essa musiquitta cheia de graça e provocação. Te desejo tudo em dobro: paz, saúde, sucesso, equilibrium”.
FÉ BRASILEIRA
A sonoridade do forró segue embalando a tracklist com “Eu Não Sou Santa”, faixa em parceria com Mestrinho – sanfoneiro, cantor e compositor conhecido nacionalmente por compor o projeto “Dominguinho”. Aqui a dupla canta uma ode à Nossa Senhora Aparecida, conhecida como a padroeira do Brasil. “É bonito ver Anitta trazer regionalismo e transformar isso também numa coisa pop, levando para as novas gerações o que há de mais bonito na música brasileira”, festeja o músico.

A cantora lembra que, para ela, não tinha como a faixa ficar de fora do álbum. “Minha mãe estava com a gente no estúdio durante a gravação. E ela não parava de falar que a música era linda. Concordo super com ela. ‘Eu Não Sou Santa’ me lembra muito as mulheres da minha família, que são devotas de Nossa Senhora. É uma música que representa muito a fé dos meus e também de milhões de brasileiros”.
Crença e brasilidade também dão o tom de “Ogum Me Rodeia”, canção em que Anitta se reúne com Maria Bethânia e Leticia Fialho. O orixá, que é fortemente associado a São Jorge no sincretismo brasileiro e é conhecido também como patrono dos trabalhadores, é tema central na canção. “Essa música tem uma sonoridade atemporal e letra que é poesia pura. Até hoje fico muito emocionada com ela, principalmente porque eu já me apeguei muito à energia de Ogum nos momentos em que eu achava que não daria conta do meu trabalho. E tenho certeza que muitos brasileiros fazem isso diariamente. É uma música sobre fé e sobre o Brasil, sabe?”, reflete Anitta.
“Gostei de participar do novo trabalho da Anitta, o ‘EQUILIBRIUM’, a seu convite para dizer boas palavras saudando o menino Oniri. Salve, salve”, saúda Maria Bethânia, que contribui com a canção declamando um poema em homenagem a Ogum.
A participação de Letícia Fialho na faixa aconteceu de forma espontânea. A artista inicialmente contribuiria como compositora do projeto – é dela a autoria de três faixas da tracklist -, mas Anitta se apaixonou por seu timbre. “Ser levada até ali pela minha caneta de artista independente, no suor de todo dia, pra escrever e cantar uma canção-oração em homenagem a Ogum pros trabalhadores e trabalhadoras brasileiras faz todo sentido pra mim”, reflete Letícia, que se identifica como uma “operária da música popular brasileira”.
Anitta reafirma sua conexão com o candomblé também no samba-pop “Feitiço”, que conta com vocais de Mart’nália e sampleia o ponto de Exu “Botaram Feitiço”, de J. B. de Carvalho. Na letra, as artistas cantam sobre o poder das encruzilhadas e sobre a segurança de sentir-se protegido por sua fé.
Já em “Contemplação”, a carioca se une ao Grupo Ofá, conjunto musical formado por integrantes da comunidade do Terreiro do Gantois, de Salvador. Pensada como uma oração musicada, a canção tem versos em iorubá e foi eleita por Anitta como a sua preferida do disco. “Sou fã declarada do Grupo Ofá. Consumo e admiro o trabalho deles. Mas nada me preparou para a emoção que senti quando ouvi a produção pronta. É uma música que melhora o meu dia sempre que a escuto”.
O produtor Julio Feijuca, que assina os arranjos, conta que ela estava semi-pronta quando a girl from Rio a escutou pela primeira vez. “A Anitta viu um vazio na música que eu não tinha visto. Quando ouvi a sessão de voz dela, com várias camadas, entendi que era ali que estava faltando algo. Ela já estava visualizando essas camadas de voz. Ela cantou lindo, uma interpretação linda em cima da música, com o coração na frente do microfone”, conta.
Por sua vez, Iuri Passos, membro do Grupo Ofá, festeja a colaboração: “O Grupo Òfá já tem como missão preservar e conseguir levar a música do candomblé para o maior público possível e agora temos essa oportunidade de levar essa música para todos os fãs da Anitta. É uma honra”.
SABERES ANCESTRAIS
Somam-se os momentos em que “EQUILIBRIVM II” dialoga sobre a ancestralidade brasileira. Em “Deus Mãe”, por exemplo, Anitta e King Saints cantam sobre a força feminina que é transmitida de mãe para filha. A mensagem é transmitida logo de cara, na abertura que conta com um sample de “Plantadeira”, de Minuska Lima. “Foi no teu peito / Que eu morei primeiro / Nos seus olhos vejo / Toda dor da criação”, cantam os versos.
Já na eletrizante “OKE”, que fecha o disco, a celebração é em nome das populações indígenas. A sonoridade bebe do funk e da música eletrônica para canalizar a potência desses povos, que são citados um a um na letra. “Nem o veneno de cascavel me matou / A pior tempestade não me parou / O encanto do boto não me enganou / Nada na mata me mata”, dizem os versos, que destacam a resiliência dessas populações. Além disso, brilha aqui o sample “Cabocla de Pena”, tradicional ponto de umbanda.
A rapper Katú Mirim, que é descendente do povo Boe Bororo, fala da importância dessa parceria com Anitta: “Este feat representa um chamado para a reconexão com nossas raízes, para a valorização dos saberes ancestrais e para a retomada da nossa espiritualidade, lembrando que o equilíbrio nasce quando reconhecemos a força da terra, dos nossos ancestrais e da coletividade”, explica.
Também colaboram com vocais na faixa o grupo de rap Brô MC’s, composto por artistas indígenas Guarani-Kaiowá. É como afirma Bruno VN, um dos integrantes da trupe: “Acredito que o meu povo vai se sentir representado com essa música. Não só representado, como vai fortalecer a nossa luta, a nossa resistência, e que eles possam enxergar mais também os artistas indígenas. Que abram mais portas. Que o povo Guarani-Kaewá de Mato Grosso do Sul nunca deixe de sonhar”.
Colaborador frequente do projeto “EQUILIBRIVM”, o produtor musical Carlos do Complexo co-assina a produção de “OKÊ”, entre outras faixas do projeto. Ele relembra o processo criativo da canção: “Por várias vezes, imaginamos essa música nos shows com as pessoas cantando o refrão e jogando a mão pra cima. Foi uma música muito divertida de fazer. A faixa mistura o funk 150BPM, a música eletrônica e alguns instrumentos, como a flauta”.
RITUAIS DO CORPO
Ritmo que protagoniza a carreira de Anitta desde os seus primórdios, o funk guia a sonoridade de “Sal Grosso”. A faixa conta, inclusive, com o sample de “Treinamento do Bumbum” – clássico do DJ brasileiro O Mandrake -, além de referências ao dancehall e ao ragga. “‘Sal Grosso’ fala muito sobre rituais de proteção e limpeza da alma, sabe?”, explica a cantora. “Pra mim, a dança, a sensualidade e o corpo em movimento têm esse poder de cura e elevação. Então eu quis que a produção fosse bem dançante, pra celebrar essa energia ritualística”.
Natural de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, Kbrum colabora com vocais na canção. “Minha cabeça explodiu ao perceber que a maior artista do Brasil estava fazendo um dancehall/ragga comigo. A sensação era de que a parte que eu iria compor já estava pronta dentro de mim, e por isso escrevi tudo muito rapidamente”, ele relembra.
A sensualidade como ferramenta de elevação também é tema de “Divino Sexual”, que descreve o encontro entre dois corpos como uma experiência energética, de conexão entre almas – conceito muito inspirado na filosofia tântrica. “O tantra entende a energia sexual como uma força vital capaz de integrar corpo, consciência e espiritualidade, rompendo com a ideia de que desejo e sagrado ocupam lugares opostos”, reflete a girl from Rio.
Na mesma levada, “Ponta do Pé” é um samba inspirado pela dança de gafieira. A canção tem forte carga afetiva, já que Anitta tem em comum com sua família o amor pela dança de salão.
VULNERABILIDADE
Tema constante em ambos o álbuns de “EQUILIBRIVM”, a afetividade também brilha nas letras do volume dois. É como acontece em “Azul”, versão em espanhol do clássico de Djavan, que versa sobre a pureza e a imensidão do amor.
Já em “Pra Você Gostar de Mim”, Anitta usa de uma bossa nova melancólica para refletir sobre sua relação de afeto com a própria carreira. Para isso, parte da clássica marchinha carnavalesca “P’ra Você Gostar de Mim”, imortalizada por Carmen Miranda em 1930, para tecer um paralelo entre a trajetória da Pequena Notável com a sua própria.
“Dá pra dizer que a Carmen Miranda foi o ponto de partida para essa minha jornada de autoconhecimento. Conhecendo a história dela, as formas com que ela teve que se dobrar para navegar naquela indústria, no que ela teve que passar pra gostarem dela… ‘EQUILIBRIVM’ nasce do meu desejo de que a minha trajetória tenha um final diferente da dela”, reflete Anitta.
E o clima confessional chega a seu ápice com “Respira”. O sambinha, que originalmente tinha letra em espanhol, foi traduzido para o português pela própria Anitta. “Ela veio da favela / Elegante apareceu na sua tela / Mas todo mundo só falou da bunda dela / A gata era doidinha mas também tinha juízo”, diz a letra, que arremata: “Passava mó visão mas ninguém falava disso / Por que cantava funk olha só que desperdício / Quem dera fosse homem tinha mais benefício / Que confusão”.
“Fiz questão de assinar essa tradução, porque são versos muito pessoais. Muito íntimos, sabe? Em que reflito sobre a minha carreira e alguns desafios que enfrentei, como mulher, nessa trajetória”, compartilha Anitta.
POESIA AUDIOVISUAL
Pensado também como um projeto audiovisual, “EQUILIBRIVM II” chega acompanhado de um curta-metragem que transforma as reflexões das músicas em espetáculo cinematográfico. A produção é assinada pela Ginga Pictures, time encabeçado por Felipe Britto e Mel Chapaval, responsável por todos os visuals do primeiro álbum. Nídia Aranha assina a direção criativa (tanto visual quanto musicalmente), inclusive colaborando com Felipe Sassi e Nico Mascarenhas na direção geral.
O mini-filme dá continuidade à narrativa em quatro partes do álbum anterior. “Começamos o curta falando sobre o karma não como punição, mas como aprendizado”, reflete Anitta, que surge encarnando Carmen Miranda ao som da melancólica “Pra Você Gostar de Mim” – exatamente a faixa que a cantora destacou como ponto de partida narrativo do projeto. A inspiração visual aqui é o icônico número musical da atriz portuguesa no filme “Entre a Loura e a Morena”, de 1943.
Após a desilusão retratada na faixa, Anitta busca orientação divina: se consulta com uma cartomante, aqui interpretada por Thai de Melo. E faz confissões sobre o estrelato e a pressão pelo sucesso material.
O caminho para cura e proteção ela encontra ao lado de Mart’nália em “Feitiço”, momento em que elas celebram as forças invisíveis que atravessam a vida, com destaque para os Exus e Pombagiras, que dão o tom da produção.
Em seguida, brilha na tela a diversidade cultural que faz parte da identidade espiritual da girl from Rio. Nesse contexto, o babalorixá e antropólogo Pai Rodney William Eugenio surge interpretando um pai de santo que aconselha a cantora a cuidar do seu ori e se conectar com sua espiritualidade.
Aqui a faixa “Contemplação” se destaca como uma ode a Oxum como movimento primordial em direção à cura. Nesse processo de autoconhecimento, a poderosa se propõe também a se conectar com dois elementos fundamentais: seus antepassados e a natureza, movimento que é ilustrado ao lado de MC Tha na dança delicada de “Sem Pressa”.
Na sequência, “Deus Mãe” festeja a maternidade como manifestação do divino – contando inclusive com a participação das mães de Anitta e King Saints, além de uma procissão de mulheres. O bloco é agraciado também pela atriz, escritora e poetisa Elisa Lucinda, aqui na pele de uma benzedeira que avisa que “a matéria não mata a fome da alma”. “Não Sou Santa”, por sua vez, dá continuidade à essa celebração do divino feminino, dessa vez ao exaltar Nossa Senhora Aparecida em toda a sua brasilidade.
Interpretando um caboclo, o ator e produtor cultural Mac Suara surge em seguida num momento de sabedoria. No texto, ele acusa a ocupação irresponsável da terra e propõe um canal de conexão entre o presente, a ancestralidade e o futuro. Aqui destacam-se as faixas “Oke” e “Sal Grosso”.
“Em ‘Oke’, nós propomos uma união entre a energia da natureza com a tecnologia. Transformamos a floresta em pista de dança. É um dos meus visuais preferidos por mostrar essa rave de corpos diversos e livres, sabe? Rompendo com estereótipos associados aos povos originários e deixando claro que não existem inovação sem respeito à ancestralidade indígena”, reflete Anitta.
Membro do grupo Brô MC’s, que participa da música e do visual, Kelvin Mbarete comenta o impacto causado pela produção: “O mais marcante foi ver tantos parentes indígenas reunidos nesse videoclipe. Isso tem um significado muito forte, porque levamos nossa identidade, nossa história e nossa arte para um público muito maior”.
A faixa “Sal Grosso” fecha o bloco inspirando-se em Oyá (senhora dos ventos e dos raios) e na tradição iorubá dos Zangbetos, para jogar luz sobre a ancestralidade negra que atravessou o Oceano Atlântico e pulsa na cultura brasileira. Em uma das cenas, por exemplo, Anitta surge montada em um búfalo e adornada com elementos inspirados na cultura do Benin, país da África Ocidental.

Daniel Ueda, o stylist que co-assina (ao lado de André Philipe) os looks da produção, reflete sobre essa diversidade de referências e construções que permeiam a moda de “EQUILIBRIVM II”: “Fomos olhando para o Brasil inteiro nessa curadoria”, explica. “Queríamos sair um pouco do eixo Rio – São Paulo. Fizemos uma reunião de brainstorm com a Nídia Aranha, ela foi apresentando a ideia de cada ato do curta e percebemos que apresentaríamos várias Anittas mesmo. A Carmen, as pombagiras, a romântica, a lúdica… Foram várias ‘skins’ dela, sabe?”. O profissional revela ainda o cuidado que teve de destacar marcas e designers brasileiros nesse processo: “Priorizamos marcas nacionais do país inteiro. Isso é muito legal, porque acabamos mostrando ao mundo marcas que podem acabar sendo super impactadas por essa visibilidade”.
Inspirada pela relação sincrética entre os Erês (entidades espirituais do candomblé) e São Cosme e Damião, além da minissérie “Hoje É Dia de Maria” (2005), Anitta surge em um universo de sonho ao cantar “Abre Caminho”.
Mas o clima muda logo em seguida: com fotografia em tons de vermelho, Anitta é aconselhada sobre ligação entre o sagrado e o profano, o sexo e a elevação espiritual, por uma Pombagira interpretada por Valéria Barcellos. Embalada pelas faixas “Divino Sexual” e “Ponta do Pé”, este bloco traduz em imagens reflexões e estudos de Anitta sobre o tantra e a relação entre o corpo em movimento, a sensualidade e o sagrado.
“Eu e a Nídia Aranha usamos o termo ‘manifesto coreográfico’ para identificar ‘Divino Sexual’. É um vídeo que se inspira no tantra pra sustentar a ideia de que o sexo, pra além do carnal, pode ser um encontro de almas, de afetos… É um manifesto coreográfico pela liberdade da gente sentir desejo e prazer”, conta a poderosa. Outra grande inspiração aqui foi Kali Shakti, a divindade hindu da destruição e da energia feminina. Já em “Ponta do Pé”, a artista honra sua raízes cariocas ao protagonizar cenas de dança inspiradas pelas gafieiras do Rio de Janeiro,
O curta-metragem caminha para o final quando Anitta se vê cara a cara com Exu – na pele do ator Jorge Guerreiro. Aqui, ao som de “Você Já Sabe”, a narrativa se distancia de interpretações moralizantes da entidade e a exalta como aquele que abre caminhos, rompe estagnações e lembra que toda travessia começa em uma encruzilhada.
A gira começa em meio a fumaça vermelha densa e silhuetas que emergem do escuro. Destaca-se uma estrutura de ferro, inspirada pelas obras do artista soteropolitano Zé Diabo, que vira palco para muita dança. “A gente finaliza o curta desse segundo álbum celebrando a liberdade e as verdades que Exu escancara pra gente, elementos que são essenciais na busca pelo equilíbrio”, explica Anitta.
Fotos: André Nicolau.
