Chico 2.0: Camila Rebouças revela os desafios por trás do projeto que aproxima Chico Buarque das novas gerações.
Profissional com 22 anos de carreira, Camila Rebouças fala sobre os bastidores da produção, a escolha dos artistas e o desafio de unir a poesia de Chico Buarque à sonoridade urbana contemporânea.
A música brasileira ganha uma nova perspectiva com Chico 2.0, projeto que propõe uma releitura da obra de Chico Buarque a partir do encontro entre diferentes gerações e linguagens musicais. A produção reúne quase 20 músicas e mais de 20 artistas convidados, criando uma ponte entre a obra de um dos maiores nomes da MPB e gêneros da cena urbana contemporânea.
Reportagem: Portal Sintoniza.
- “Chico 2.0” propõe uma releitura da obra de um dos maiores nomes da música brasileira. Como nasceu a ideia do projeto e qual foi o principal desafio para transformar esse conceito em realidade?
Resposta: O Chico 2.0 nasce das mentes inquietas e ousadas de Celso Athayde, Felipe Poeta e Fabio Almeida. A ideia central era criar uma ponte entre a genialidade de um dos maiores patrimônios da nossa música e a sonoridade da cultura urbana atual. O principal desafio foi transformar esse conceito em realidade mantendo a sofisticação e a poesia das obras originais, ao mesmo tempo em que dávamos liberdade criativa para que os beats, arranjos contemporâneos e as novas interpretações ganhassem vida.
- O projeto reúne diferentes gerações e linguagens musicais. Como foi o processo de escolha dos artistas e de construção dessa conexão entre a obra original e as novas interpretações?
Resposta: O processo musical começou com a escolha das quase 20 músicas que integram o projeto, o que, por si só, já foi bem complexo, tendo em vista o vasto repertório de Chico. A partir daí, os diretores artísticos, os produtores musicais e a produção executiva trabalharam intensamente para montar o que parecia ser um quebra-cabeça de milhares de peças, composto por canções e artistas dos mais diversos gêneros musicais. Levamos em consideração o estilo de cada um, a complementaridade entre os feats, a musicalidade e a mensagem por trás de cada faixa. Tudo foi muito bem pensado e existem milhares de sutilezas que o público vai ter a oportunidade de descobrir ouvindo o álbum.
- Você já esteve à frente de grandes produções no Brasil e no exterior, incluindo projetos com Ivete Sangalo e eventos internacionais. O que produzir “Chico 2.0” trouxe de diferente em relação a esses grandes trabalhos?
Resposta: A arte é sempre desafiadora, mas trabalhar no projeto para um só artista acaba sendo ‘menos difícil’, pois focamos em traduzir conceitos, desejos e transmitir a mensagem de apenas uma pessoa. Por mais complexo que isso seja, temos uma única fonte criadora e tudo deriva dela.
Esse projeto é completamente diferente, pois é coletivo em sua essência. São mais de 20 artistas convidados, de diversos estilos musicais, de diferentes gerações, sem protagonistas e, ao mesmo tempo, todos convergindo para um ponto em comum: a obra de Chico Buarque. Trabalhar com tantos elementos distintos e conseguir um resultado final tão positivo é extremamente complexo e foi uma conquista de um grande time.
De todos os trabalhos anteriores que fiz, talvez o que mais se aproxime desse seja ‘A Grande Noite Bossa Nova’, um projeto que realizamos no Carnegie Hall, em Nova York, que uniu, no mesmo palco, Alaíde Costa, Seu Jorge, Roberto Menescal, Carlinhos Brown, a britânica Celeste, Daniel Jobim e Carol Biazin para celebrar os 60 anos da Bossa Nova, o gênero musical que projetou o Brasil para o mundo. Foi um evento histórico e premiado com um Leão de Ouro no Festival de Cannes.

- Por trás de um projeto musical dessa dimensão existe uma grande operação de produção. Quais foram os bastidores ou desafios que o público dificilmente consegue perceber quando acompanha o resultado final?
Resposta: Alguns artistas quiseram gravar as mesmas músicas, e assim surgiram alguns dos feats. Mas nem sempre foi possível atender a todos, então oferecemos outras canções e eles toparam. Também chegamos a convidar alguns cantores que se encantaram pelo projeto, mas que não conseguiram gravar a tempo do lançamento devido às agendas. A logística também foi um desafio gigante: o projeto foi gravado simultaneamente em três estados diferentes. Os produtores trabalharam duro e tiveram que se dividir para dar conta de tudo. E, apesar de contar com um time 100% brasileiro, a masterização foi feita nos Estados Unidos.
- Depois de 22 anos de carreira e de experiências em projetos tão diferentes, o que “Chico 2.0” representa para você profissionalmente e o que espera que o público leve dessa experiência?
Resposta: Sou fã de Chico desde sempre, escutei Os Saltimbancos quando ainda era criança e, apesar de já ter trabalhado com grandes ídolos, nunca imaginei que faria parte de um projeto com o objetivo de romper barreiras musicais e geracionais ao apresentar releituras da obra de um ícone como ele. Hoje, vejo os fãs do funk, do trap e do rap ouvindo Chico 2.0, conhecendo e se encantando com a poesia das canções – incluindo meus filhos de 11 e 14 anos. Isso traz a eles novas referências, apresenta a história recente do Brasil e mostra a imensa riqueza da MPB. Nada pode ser mais gratificante que isso.
- Trabalhar com a obra de um artista com um legado tão consolidado exige um cuidado especial. Como foi encontrar o equilíbrio entre respeitar a essência das músicas e, ao mesmo tempo, permitir que o projeto tivesse uma identidade contemporânea?
Resposta: O equilíbrio começou com a definição de quem seriam os produtores musicais do projeto. Alê Siqueira é um maestro e produtor musical com mais de 35 anos de experiência que já trabalhou com lendas da MPB, incluindo o próprio Chico. Ao lado dele, Felipe Poeta, que é um gênio dos beats e da música eletrônica: com apenas 23 anos, já é premiado e tem trabalhado com grandes nomes como Luedji Luna e Carlinhos Brown. Juntos, eles tiveram completa liberdade artística, mas mantiveram uma premissa em respeito às obras de Chico: a fidelidade absoluta às letras e melodias originais. A partir disso, os novos arranjos foram sendo criados, os instrumentos foram gravados, os beats e as bases foram trabalhados e só então vieram as vozes dos intérpretes. O resultado musical contemporâneo e surpreendente é mérito 100% dessa dupla.
- Em uma produção que envolve tantos profissionais, artistas e diferentes etapas, qual foi o momento mais desafiador de “Chico 2.0” e como a equipe conseguiu superar esse desafio?
Resposta: Sob a perspectiva executiva, o grande desafio foi superar a primeira etapa de convidar e confirmar a participação dos artistas no projeto. Depois disso, a complexidade esteve em conciliar tantas agendas e cumprir todas as etapas em um prazo bastante apertado até o lançamento. Contar com uma equipe de profissionais dedicados e altamente experientes fez toda a diferença para fechar essa equação.
- Existe algum detalhe ou história dos bastidores de “Chico 2.0” que aconteceu durante a produção e que você acredita que o público vai gostar de conhecer?
Resposta: Acho que o detalhe que vale a pena destacar é que o projeto só deixou de ser uma ideia e passou de fato a ser executado depois que tivemos a aprovação do próprio Chico para seguir adiante. Ele poderia preservar sua obra de outra maneira, sem alterações tão significativas, mas o fato de ter dado sua bênção para que artistas urbanos da atualidade as reinterpretam mostra o quanto ele é generoso e visionário. Ao mesmo tempo, não houve nenhuma interferência artística da parte dele no projeto. Tivemos total liberdade criativa.
- O mercado de entretenimento mudou bastante ao longo dos seus 22 anos de carreira. Na sua visão, o que mudou na forma de produzir grandes projetos musicais e quais são hoje os principais desafios para quem trabalha nos bastidores?
Resposta: A tecnologia facilitou muito os processos de produção. Há 22 anos, cheguei a presenciar gravações e mixagens em fita dentro de grandes estúdios, com mesas analógicas gigantescas. No mundo digital, tudo ficou mais leve, compacto e ágil. Em tempos de Inteligência Artificial, boa parte do trabalho operacional já pode ser otimizada por ferramentas e agentes digitais, permitindo que equipes colaborem à distância sem qualquer prejuízo à qualidade final. Por isso, os grandes desafios atuais não estão nos equipamentos, mas nas relações humanas. Nesse ritmo frenético, tendo a música como matéria-prima, o fundamental é garantir que todos caminhem na mesma direção e em sintonia. Alinhar criatividade, comunicação fluida, integração e agilidade na resolução de problemas são os verdadeiros desafios da produção contemporânea.

Ao longo de mais de duas décadas de atuação na área de carreira, Camila Rebouças consolidou sua atuação em algumas das principais produções da música e do entretenimento no Brasil e no exterior. Entre os trabalhos de destaque estão a coordenação de projetos de Ivete Sangalo, incluindo o DVD gravado no Madison Square Garden, em Nova York, além de participações em apresentações no Rock in Rio e especiais televisivos.
Na Join Entretenimento, Camila também esteve envolvida em grandes produções internacionais, como o Global Citizen Festival e o Global Citizen Live, além da produção de vídeo do histórico show “The Celebration Tour”, de Madonna, em Copacabana. A profissional também participou da direção de produção de “A Grande Noite Bossa Nova”, realizada no Carnegie Hall, em Nova York.
Sua experiência se estende ainda a projetos desenvolvidos para importantes empresas e plataformas de comunicação e entretenimento, como TV Globo, Multishow, Globoplay e HBO Max, além de marcas como Bradesco, Banco do Brasil, Nivea e Grupo Heineken.
Com uma trajetória que reúne grandes eventos, produções audiovisuais e projetos culturais, Camila segue ampliando sua atuação no setor. À frente do Backstage Lab, também trabalha pela capacitação e valorização dos profissionais que atuam nos bastidores do entretenimento, enquanto se dedica à construção de novos projetos culturais, audiovisuais e de impacto social.
Fotos: Saulo Brandão.
